A capa do livro, de autoria de Nordahl Neptune e desenho em nanquim
de Fábio Rontani Elias Rocha nasceu em 3 de agosto
de 1931, se tivesse nascido no dia 1º de abril seria uma ironia da vida.
Entretanto, foi logo morrer na data de hoje, pura ironia do destino. Assim foi
a sina de Elias Rocha, que nos deixou em 2008, bem no Dia da Mentira, data que
simboliza sua maneira de subverter a morte, coisa que fez vivo com a arte ao
revolucionar os princípios estabelecidos pelas grandes escolas artísticas, as
quais sentenciam e impõem padrões estéticos. Elias dos Bonecos foi o maior, mas
não porque era melhor, mas porque era legítimo e original.
E para homenageá-lo Nordahl Christian Neptune lançou, ano passado,
na Casa do Povoador, um livro para mostrar toda a admiração e o respeito que o artista merece. A capa é outra obra prima do artista e ilustrador Fábio Rontani, que fez o projeto gráfico e diagramou o livro que ainda é recheado de fotos de alguns craques como Fabrice Desmonts, Claudinho Coradini, Justino Lucente e Bolly Vieira, entre outros. O prefácio é de Esio Pezzato.
Elias nasceu na Chácara Morato, nas proximidades das barrancas do
Rio Piracicaba, sempre presente e inspirador de sua obra. Formado na Escola
Senai, foi trabalhar em empresas metalúrgicas, sem deixar de outro hábito
incomum, construir barcos. Foram mais de 3.000 em sua vida. Foi demitido da
empresa metalúrgica por participar de uma greve. Depois disso, passou a ser
carroceiro e coletor de materiais inservíveis que encontrava pelas ruas da
cidade como papelão, latas, garrafas, que vendia em locais apropriados até seus
últimos dias.
Mais do que contar as origens do projeto dos bonecos que povoaram
a rua do Porto e o imaginário popular, o livro contará as origens do projeto,
feitos com latas, restos de madeiras, roupas velhas e enchimentos de palha ou
capim seco. A primeira ação ocorreu num dos bares famosos da época, o Bar do
Araken Martins e noutro, mais adiante, do Mané, frequentado pela elite cultural
e boêmia da cidade naqueles dias.
Elias dos Bonecos foi o maior, mas não porque
era melhor, mas porque era legítimo e original
Os bonecos surgiram quando Elias, convidado para fazer um “Judas”
na Semana Santa, foi escorraçado por uma vizinha, cujo filho tinha se assustado
com a feiura dos mesmos. Mas Elias, paciente e sereno, teve nos amigos dos
bares dos amigos, a força necessária para ouvir que aquilo era lindo e poderia
transformar a imagem do nosso rio. E sacudir a imaginação da cidade. E passou a
produzir com intensidade e a distribuir seus bonecos pela orla do rio,” do lado
de lá da Casa do Povoador, nos barrancos do Engenho Central.
Mas ele não contava que seus bonecos, antes “feios” se
transformassem em objeto de desejo de muita gente. Em especial dos agricolões,
que na calada das noites, retiravam seus pescadores da margem do rio e os
levavam escondidos para as repúblicas onde moravam, e os faziam de verdadeiros
troféus.
Os bonecos eram reinventados nas datas típicas da cidade, como a
Festa do Divino (da qual Elias foi festeiro com sua nora), a páscoa, o natal,
as folias de reis, o carnaval, entre outras. E vez ou outra apareciam
envergando a camiseta histórica do nosso Quinzão.
A composição da foto é perfeita ao contemplar Elias, seu boneco e o Rio Piracicaba
SOBRE O LIVRO
Neptune
nos propõe, na abertura do novo livro, um conceito de Michel de Certeau, no em
“A invenção do cotidiano, artes do fazer”, no qual o autor propõe "(...)
ao homem ordinário, herói comum, personagem disseminada, caminhante inumerável,
que mesmo não sendo ninguém neste teatro humanista, ainda ri... E nisto ele é
sábio e louco ao mesmo tempo, lúcido e ridículo, no destino que se impõe a
todos e reduz a nada a isenção que cada um almeja... Esse herói anônimo vem de
muito longe. É o murmúrio das sociedades. Pouco a pouco ocupa o centro de
nossas cenas científicas. Socialização e antropologização da pesquisa
privilegiam o anônimo e o cotidiano onde zooms destacam detalhes metonímicos -
partes tomadas pelo todo".
O autor do livro, Nordahl Christian Neptune
E
nos esclarece que “o propósito desta dissertação de mestrado, que alia, ao
mesmo tempo, o estudo de uma expressão excepcional da cultura popular
brasileira e os modos comunicacionais
de procurar evocá-la na sua polivalência constitutiva, é estudar a trajetória
de vida de Elias Rocha, então com 71 anos, mais conhecido como "Elias dos
Bonecos", cuja arte singular é confeccionar bonecos, em tamanho natural,
feitos a partir de sucata e de roupas doadas por parte da população, e
inseri-los nas margens do rio que deu nome e origem à cidade de Piracicaba, SP.Buscamos
também entender a influência do cotidiano no desenvolvimento de sua arte, bem
como destacar as várias etapas que envolvem sua produção artística, a função e
destino de seus bonecos, as múltiplas visões contemplativas, interpretativas e
representativas dessa arte popular, sob o ponto de vista ecológico, lúdico e
imaginário, no contexto sociocultural da contemporaneidade.
Sua
pesquisa parte de um tema caro a todos nós, “Um Rio, uma Cidade e um Artista”,
depois envereda pelas origens e discussão sobre outro tema marcante para todos
nós, a música: Rio de Lágrimas; discorre sobre nossa mais famosa e antiga
festa, a do divino, apresenta com todas as cores e alegrias, nossa rua do
Porto. Há na sequência um poema e uma música composta pelo autor e pelo músico
Marinho Castelar.
Depois
disso, no capitulo intitulado A Arte de Elias dos Bonecos, discorreu sobre as
origens de um projeto que, nasceu como uma brincadeira, falando do seu processo
criativo, procedimento, componentes técnicos de fabricação. E prossegue
discutindo as ações da filosofia de um homem simples, em suas dimensões
ecológica, lúdica e imaginária.
No
capítulo sobre a A Arte de Elias dos Bonecos, analisa a gênese dos
bonecos, as técnicas através das quais são construídos o processo criativo do
artista e o destino plural dado aos bonecos. Reconhecer o trabalho do artista,
os motivos que o levam a exercer sua arte e como ela é percebida, pode ser a
chave para entender porque, afinal, os bonecos tornaram-se elementos lúdicos
importantes de uma cultura, símbolo de luta e resistência para uma sociedade
que se organiza em prol da preservação e despoluição do seu maior patrimônio: o
rio.
Mais
adiante discute que “foi diante dessa conjuntura que Elias dos Bonecos buscou,
através da arte, demonstrar toda sua preocupação com o rio e o meio ambiente e,
ao mesmo tempo criar com seus bonecos uma atmosfera paisagística mais alegre, convidativa
e nostálgica, lembrando o tempo em que os pescadores e suas famílias tiravam o
sustento das águas límpidas e cristalinas do rio. Depois discute O Processo
Criativo, Procedimentos, e os Componentes e Técnicas de Fabricação -, a
partir do trabalho de campo de pesquisa, realizado através do acompanhamento do
cotidiano de vida do artista, de registros orais, textuais, bibliográficos e
audiovisuais, como a fotografia e o vídeo, foram analisadas, em detalhes, as
diversas fases que compõem o saber artístico popular e a etnologia do
objeto-boneco.
Quem se dispuser a dar uma passadinha na Casa do Povoador, vai
encontrar um resto de memória do velho bonequeiro, numa sala especial que
existe por lá para homenageá-lo. Ele faleceu, depois de longa doença, em 1º de
abril de 2008, conhecido como o “Dia da Mentira”, mas sua memória continua
presente em nossa cidade.